A crise!

Conversando com o Editor (Revista UpPharma)

Nelson Coelho

Cortar custos insignificantes e de grande impacto na motivação da equipe, a chamada “economia de amendoins”, leva o pessoal a colocar em dúvida a estabilidade da empresa.

 Fornecedores que ouvem a frase “estamos cortando verba”, inconscientemente criam a imagem de fraqueza. E não é este conceito que se deve passar.

Recentemente, passei na frente de um consultório astrológico que tinha como objetivo prever o futuro e havia sido inaugurado há seis meses, e imaginem, faliu!

Na verdade, adivinhar o futuro não é mesmo uma tarefa fácil. Mas o fato é que em tempos incertos em que os assuntos principais são a crise e a desaceleração econômica, é importante refletir sobre algumas questões.

Descreve-se a economia da China como um elefante andando de bicicleta: enquanto tiver velocidade tem equilíbrio. Alguns já notam a redução da velocidade. Isso pode levar a um tombo que incomodará a muitos em volta. O Brasil é um destes países que está próximo ao percurso ciclístico do elefante, já que tem este parceiro como um de seus grandes consumidores de exportação. A redução na velocidade da economia da China, em conjuntura com o recrudescimento do PIB nacional, já se apresenta para um futuro de contratempos no crescimento brasileiro. Somando-se as contas públicas, ultrapassando todas as possibilidades previstas na contenção de gastos, está criando um rebuliço chamado crise. Esse parece ser o pano de fundo para muitas empresas usarem o já conhecido jargão “vamos cortar verbas”.

Há alguns dias, saiu uma frase de um empresário brasileiro: “Eu e minha empresa não entraremos nessa crise”. Parece mantra de autoajuda. A análise das decisões deve ser feita com critério e olhar voltado para o futuro. Não é autoajuda, é planejamento.

O sucesso do presente, ou do passado, não são garantias de sucesso no futuro. Estabelecer metas de manutenção de marca e produtos se faz imperativo para a continuidade em ocupar o seu lugar no mercado.

Descuidar da comunicação

O fator do descuidado na capacitação e motivação de cada funcionário é o começo para enfiar o pé no atoleiro. O quadro de profissionais de uma empresa é o que dá forma e vida a um contrato estabelecido na Junta Comercial, chamado “A Empresa”.

Cortar custos insignificantes e de grande impacto na motivação da equipe, como reduzir o café, copos descartáveis, leitura e lazer, a chamada “economia de amendoins”, não é orientação para um grande passo na manutenção dos lucros. Pelo contrário, leva o pessoal a colocar em dúvida a estabilidade da empresa, dos produtos e o seu todo, afinal, são cortes mesquinhos.

Igualmente, a redução na manutenção e divulgação da marca institucional e a desaceleração no cuidado com esse aspecto, podem custar muito caro no futuro. O esquecimento é um peso oneroso a se pagar.

Marcas e produtos reconhecidos, afamados no mundo inteiro, sucumbiram quando descuidaram de suas imagens, tanto do endomarketing quanto do “exomarketing”.

Cuidar do pessoal e da divulgação fornece subsídios fundamentais para manter a imagem de solidez e a saúde das vendas.

Não ponderar os custos no atual cenário econômico

Enquanto a Embraer divulgava seu lucro do segundo trimestre de 2015, na casa dos R$ 405,5 milhões, um banco de primeira linha declarou que ultrapassava a casa dos R$ 4,4 bilhões. Mais de dez vezes que uma empresa produtora de bens e serviços.

Tomadas pela facilidade de créditos a baixo custo, as empresas nacionais entraram endividadas em uma crise. Esse é um cenário sombrio para a economia. Os juros sobem e tomam o lugar da verba de manutenção e divulgação da empresa. Isso porque os créditos são rotativos e novos têm de ser contratados para pagamentos dos antigos. Que tal renegociar estes juros?

O custo da manutenção

O professor Delfim Netto, no auge de sua atividade ministerial descreveu, utilizando o fator central de ideia, um país com inflação e altos juros: “Havia um país com bancos, empresas e população. Os bancos emprestavam dinheiro à população com juros altíssimos. Acabou a população, restou um país só de bancos, como não tinham a quem emprestar, os bancos quebraram. Pergunta-se e as empresas desse país? É fácil imaginar: empresas sem mão de obra e sem consumidores não existem.”

Os cuidados com o curso estrambólico da economia de Pequim devem ser considerados, levando-se em conta que o mercado europeu cresce a passos miúdos. O exemplo é a quase inexistente recuperação da Grécia. Nestes últimos tempos, o FED tem se reunido e cogita aumentar as taxas de juros para atrair mais investimento aos EUA. Com isso tudo fica bem claro, cada qual cuidando de seu quintal.

A previsão é de tempos incertos, o que não significam tempos ruins, apenas nebulosos. Mas ainda com grandes oportunidades.

O fortalecimento da marca

A marca que acabou de passar pelos faustos tempos do mercado brasileiro sem exercícios, tem gordura acumulada na cintura. Hora de exame cardiológico e dedicação aos exercícios, mas sem cortar verbas, mas adequar. Fornecedores que ouvem a frase “estamos cortando verba”, inconscientemente criam a imagem de fraqueza. E não é este conceito que se deve passar. Reexaminar e colocar o foguete no rumo certo é mais inteligente, mesmo que seja para impedir uma simples frase dita por um trabalhador, que pode começar a pequena bola de neve para desacreditar a empresa como um todo. Aliás, esse cuidado deve começar pelo alto comando estratégico, colocando seus olhos e ouvidos para observar suas próprias palavras, proibindo o “vamos cortar a verba”.

Pode ser um tempo de mais trabalho, mas, com certeza, será um tempo de saber quem é competente.

Como no início, o vidente do consultório astrológico não conseguiu prever seu próprio futuro, faliu!

 

Nelson Coelho é Diretor da DPM Editora e Publisher da Revista UPpharma.

E-mail: nelson@snifbrasil.com.br

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